Como não transformar indignação em ódio?

A reflexão de hoje é sobre uma questão fundamental: como manter a paz íntima diante das gritantes injustiças do mundo? Como exercitar a indignação (necessária, pois até Jesus a manifestou diante dos fariseus que exploravam o povo) sem se deixar escorregar para a ódio e para o asco? 

Como manter o olhar lúcido e crítico diante das estruturas profundamente injustas da sociedade, diante da falta de ética, diante da negligência com o ser humano, sem afundar-se num desânimo existencial, que nos faça parar deprimidos à beira do caminho? Como, enfim, atuar no mundo, para transformá-lo, com suficiente amor no coração, mas sem a pieguice e a apatia dos que aceitam tudo de cabeça baixa?

Lembro-me aqui de três figuras que muito me inspiram na vida e que viveram momentos críticos nesse sentido. Um foi Pestalozzi. Condecorado pela Revolução Francesa, por suas ideias progressistas para a melhoria das condições do povo e de sua educação, ele escreveu um livro intitulado Sim ou Não?, que pretendia responder se ele era contra ou a favor daquela Revolução sangrenta. Ora, claramente, ele se manifesta contrário à violência, mas a favor das reivindicações populares, diante da opressão em que vivia o povo. Hoje, é verdade, a análise marxista da História considera a Revolução Francesa uma revolução burguesa, que usou as classes populares a seu favor. 

Na época, na compreensão de Pestalozzi, era algo que brotava sobretudo legitimamente das entranhas do povo. Ele não aprovava, nem justificava a violência, mas compreendia-a, como uma reação inevitável à opressão. Numa outra obra sua,Minhas Indagações sobre a marcha do desenvolvimento da espécie humana,Pestalozzi desenvolve toda uma teoria, que antecede em alguns aspectos a psicanálise, apontando a repressão dos instintos das massas como uma das causas de explosão de guerras e revoluções. De qualquer forma, ele considera que uma educação integral, como a que ele propunha, deveria despertar a divindade interior dos indivíduos, motivando-os a agir autonomamente, sem repressão, no sentido da fraternidade e do bem-estar de todos.

Kardec, no Livro dos Espíritos, na questão 783, da mesma forma que seu mestre Pestalozzi, admite a necessidade das revoluções sociais, olhando a História de uma perspectiva no tempo: 

“O homem não pode ficar eternamente na ignorância, porque deve chegar à meta marcada pela Providência: ele se esclarece pela força das coisas. As revoluções morais, como as revoluções sociais, se infiltram pouco a pouco nas ideias, elas germinam durante séculos, depois, de repente, estouram e fazem ruir o edifício carcomido do passado, que não está mais em harmonia com as necessidades e aspirações novas.

O homem muitas vezes vê nessas comoções apenas a desordem e a confusão momentânea que o atingem em seus interesses materiais; aquele que se eleva pelo pensamento além do pessoal, admira os desígnios da Providência, que do mal faz surgir o bem. É a tempestade que purifica a atmosfera, depois de tê-la agitado.” (Tradução minha)

Entretanto, foi no século XX, que um elevado espírito, aliás chamado Mahatma (grande alma), deu um exemplo maravilhoso de uma atuação política, para transformação social, na luta contra a injustiça, por caminhos da não-violência, comprometido ao mesmo tempo com seu próprio aperfeiçoamento espiritual e com a elevação moral do povo. Gandhi foi passo a passo, como conta em sua autobiografia, construindo uma forma de atuar no mundo, para mudá-lo, sem render-se ao ódio, ao desespero e sem a alienação, muitas vezes característica, de alguns líderes espirituais. 

Unindo fé e política, autoconhecimento com a trilha da não-violência, ele deixou a mensagem de que só conquistamos a devida força moral, social e mesmo política (num sentido muito amplo e não partidário) se conquistarmos ao mesmo tempo a nós mesmos. Mas ele também se deparou com o rugir das paixões, o estouro da violência, da guerra civil, de seus compatriotas, pagando com a vida o seu empenho de dialogar com todos e não odiar ninguém.

Fica porém esse aprendizado para nós: guardemos serenidade nas lutas justas em que nos empenhemos no mundo. A oração é uma força essencial para isso. Assim nos ensinaram Jesus e Gandhi. Cuidemos de nosso mundo íntimo, para não nos rendermos ao ódio, que é um grau degenerado de indignação. E enchamo-nos de compaixão para com todos. Porque todos precisam dela.

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Sobre o autor: Geraldo V Laps

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