Comportamento do Espírita no Velório

Recentemente, fomos a um velório e nos vimos constrangidos a ouvir um "pastor", pregando a insustentável tese da unicidade das existências. Aliás, assunto inoportuno para a ocasião. O religioso, sempre com a bíblia de folhas desgastadas debaixo do braço, umedecido de suor, certamente, foi convidado a falar sobre o tema por solicitação da família do desencarnante. Detalhe: tais parentes "crentes", do "morto", sabiam que espíritas estariam presentes no local. Ao revés, poderiam ter aproveitado a oportunidade do sepultamento para orar ou discorrer, sem afetação, sobre a imortalidade da alma (como ensinou Jesus) e sobre o valor da existência humana. Porém, infelizmente, para esses cristãos, narcotizados pela idéia de "salvação" e que pensam poder comprar a "felicidade eterna" através dos dez por cento "doados" para a igreja, "a morte ainda exprime realidade quase totalmente incompreendida na Terra". (1)


Em outra ocasião, fui informado, por uma grande amiga, líder espírita no DF, de que um irmão, também espírita conhecido na cidade, solicitara-lhe um espaço no salão de palestras, para velar um corpo (o desencarnado era endinheirado). Velório (2), no centro espírita? Rimos, eu e ela, muito embora, lamentando o triste episódio. É óbvio que a solicitação do imaturo confrade lhe fora negado.


Velórios! Eis o nosso tema. Essa celebração se desviou, e muito, do sentido religioso, pois, acima das emoções justificáveis, por parte dos parentes e amigos, ostenta-se um funeral por despesas excessivas com flores, santinhos, escapulários, velas [o uso de velas não tem valia para o espírita, pois só imprime um aspecto mais lúgubre à morte], etc., etc. A eventual preocupação com a conservação dos túmulos, que, normalmente, só são lembrados no dia consagrado aos mortos, no mês de novembro, respondem por um protocolo social, também, extravagante. Não devemos converter as necrópoles vazias em "salas de visita do além", qual recorda o escritor Richard Simonetti, (3) até porque, há locais mais indicados para expressarmos o nosso sentimento aos que já desencarnaram. Não aprovamos, nem reprovamos, intransigentemente, as homenagens fúnebres, em memória de alguém, pois, "são justas e de bom exemplo". (4) Todavia, a Doutrina Espírita revela que o desejo de perpetuar a lembrança que as pessoas deixam de si, nos imponentes mausoléus, vem do derradeiro ato de orgulho. "A suntuosidade dos monumentos fúnebres, determinada por parentes que desejam honrar a memória do falecido, e não por este, ainda faz parte do orgulho dos parentes, que querem honrar-se a si mesmos. Nem sempre é pelo morto que se fazem todas essas demonstrações, mas por amor-próprio, por consideração ao mundo e para exibição de riqueza ."(5)


Devemos sempre dispensar, nos funerais, as honrarias materiais exageradas e as encenações, pois, considerando que, "nem todo Espírito se desliga prontamente do corpo" (6), urge que lhe enviemos cargas mentais favoráveis de bênçãos e de paz, através da oração sincera, principalmente, nos últimos momentos que antecedem ao enterramento ou à cremação. ,Oferenda de coroas e flores deve transformar-se "em donativos às instituições assistenciais, sem espírito sectário". (7)


Pasmem! Já, até, inventaram o velório virtual (visualização à distância) das cerimônias fúnebres de entes queridos e o encaminhamento de condolências via e-mail. Salas de velório foram equipadas com câmeras que permitem, em tempo real, uma visão geral do público e da pessoa que está sendo velada. Nesses casos, parentes e amigos podem enviar as mensagens de condolências para a família por meio de um link por site que oferece técnicas de preparação de corpos como a tanatopraxia (8) e a necromaquiagem, além de produtos como, urnas, mantos, vestuário etc. Sobre isso, sabemos que, quando comparecemos a um velório, cumprimos sagrado dever de solidariedade, oferecendo conforto à família. "Infelizmente, tendemos a fazê-lo pela metade, com a presença física, ignorando o que poderíamos definir por compostura espiritual, a exprimir-se no respeito pelo ambiente e no empenho de ajudar o morto". (9)


Analisemos o fato recente de desencarnação do cantor e ator, Michael Jackson. Mais de meio milhão de admiradores, de todo o mundo, já solicitaram entradas para o serviço fúnebre de seu corpo, agendado para os próximos dias. O nosso irmão, "rei do pop", certamente, está na mais atroz penúria na dimensão póstuma, devido à tresloucada emanação de energias mentais desfavoráveis dos "fãs". Em razão disso, admitimos que, nesse caso, felizes são os obscuros indigentes, porque são velados nas câmeras dos institutos médico-legais, posto que o velório e o sepultamento são, quase sempre, mais um motivo de sofrimento para o desencarnante. É óbvio que as preces, pelos Espíritos que acabam de deixar a Terra, têm por fim, não apenas, proporcionar-lhes uma prova de simpatia, mas, sobretudo, ajudá-los a se libertarem das ligações terrenas, abreviando a perturbação que, normalmente, ocorre após a separação do corpo, e tornando mais tranquilo o seu despertar. (10) No caso em tela, os idólatras transmitem emoções angustiantes em face da saudade, razão pela qual suas súplicas desconexas têm alcance limitado.


Imaginemos a situação desconfortante do Espírito, ainda ligado ao corpo, mergulhado num oceano de vibrações heterogêneas emitidas por pessoas, em nome da admiração, mas agem como indisciplinados espectadores a dificultar a tarefa de diligente equipe de socorro, no esforço por retirar um ferido dos escombros de uma casa que desabou. "Contribuição" lamentável, essa! "Preso à residência temporária, transformada em ruína pela morte, o desencarnante, em estado de inconsciência, recebe o impacto dessas vibrações desajustantes que o atingem penosamente, particularmente as de caráter pessoal. Como se vivesse terrível pesadelo ele quer despertar, luta por readquirir o domínio do corpo, quedando-se angustiado e aflito". (11)


São muitos os que, a título de se despedirem do "defunto", fazem do cemitério uma extensão a mais do barzinho da esquina, discutindo assuntos triviais como política, negócios e futebol - quando não, coisas piores. Isso, obviamente, tornará mais penosa a travessia entre os dois mundos. Mais do que nunca, o desencarnado precisa de vibrações de harmonia, que só se formam através da prece sincera e de ondas mentais positivas. Em o livro Conduta Espírita, o Espírito André Luiz adverte: "proceder corretamente nos velórios, calando anedotário e galhofa em torno da pessoa desencarnada, tanto quanto cochichos impróprios ao pé do corpo inerte. O companheiro recém-desencarnado pede, sem palavras, a caridade da prece ou do silêncio que o ajudem a refazer-se." (12) É importante expulsar de nós "quaisquer conversações ociosas, tratos comerciais ou comentários impróprios nos enterros a que comparecermos". (13) Até porque, a "solenidade mortuária é ato de respeito e dignidade humana". (14)


Lamentavelmente, "poucos se dão ao trabalho sequer de reduzir o volume da voz, numa zoeira incrível, principalmente ao aproximar-se o horário do sepultamento, quando o recinto acolhe maior número de pessoas". (15) Temos motivos de sobra para o comedimento. Por isso, cultivemos o silêncio, conversando, se necessário, em voz baixa, de forma edificante. Falemos no morto com discrição, evitando pressioná-lo com lembranças e emoções passíveis de perturbá-lo, principalmente, se forem trágicas as circunstâncias do seu falecimento. Oremos muito em seu benefício, porque, morre-se como se vive. Se não conseguirmos manter semelhante comportamento, melhor será que nos retiremos do ambiente, evitando engrossar o barulhento coro de vozes e vibrações desrespeitosas, que tanto atormentam o desencarnado, quanto aos que lá comparecem com objetivos nobres de captar energias dos planos superiores, do foco causal, em favor do próximo que parte para outra dimensão.


É oportuno também explicar ao amigo leitor que a perturbação que se segue à morte nada tem de, insuportavelmente, dolorosa para o justo, aquele que esteve na Terra, sintonizado com o bem. Todavia, para os que viveram presos ao egoísmo, escravos dos vícios e ambições mundanas, a morte é uma noite, cheia de horrores, ansiedades e angústias, apesar de essa perturbação ser considerada o estado normal no instante da morte e perdurar por tempo indeterminado, variando de algumas horas a alguns anos. Em algumas pessoas, ela é de curtíssima duração, quase imperceptível, e nada tem de dolorosa - poderia ser comparada como um leve despertar. No entanto, para outras, o estado de perturbação pode durar muitos anos, até séculos, e pode configurar um quadro de sofrimento severo, com angústia e temores acerbos. Alguns Espíritos mergulham em sono profundo e, nesse estado, ficam durante um tempo muito variável. "O conhecimento que nos tiver sido possível adquirir das condições da vida futura exerce grande influência em nossos últimos momentos; dá-nos mais segurança; abrevia a separação da alma." (16)


O equilíbrio mental dos familiares, ante o desencarne, será de fundamental importância na recuperação do Espírito. Pensamentos de revolta e desespero o atingem como dardos mentais de dor e angústia, dificultando a sua recuperação. A atitude inconformista da família pode criar "teias de retenção", prendendo o Espírito ao seu corpo. É natural que muitos chorem na hora da morte, porém, contendo o desespero. É mister que nos resignemos diante desse fenômeno natural da vida, ainda que, por vezes, inesperado, vendo, nisso, a manifestação da Sábia Vontade que nos comanda os destinos. Em verdade, as lágrimas podem, até, aliviar-nos o coração, entretanto, a atitude do espírita deve ser de compreensão e oração. O dia que tivermos certeza de que o que enterramos não é este ou aquele ser, mas um corpo que serviu para a valorização existencial de alguém que amamos, e que esse alguém estará sempre presente em nossa memória, pois que, experimentamos, apenas, um intervalo momentâneo, se comparado à eternidade, nosso comportamento será outro, muito mais harmonioso com esse fenômeno biológico, a que denominamos "morte".


Jorge Hessen
E-Mail: jorgehessen@gmail.com
Site: http://jorgehessen.net
Blog: http://jorgehessenestudandoespiritismo.blogspot.com


FONTES:
(1) Vieira, Waldo. Conduta Espírita, RJ: Ed FEB, 1999
(2) Segundo Aulete : "Vigília a defunto". Ato de velar com outros um morto; de passar a noite em claro onde se encontra exposto um morto.
(3) Disponível em http://comunidadeespirita.com.br/Imortalidade/quemtemmedo/estranho%20culto.htm
(4) Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 2001, Perg. 824.)
(5) idem, Pergs. 823 e 823a.
(6) Vieira, Waldo. Conduta Espírita, RJ: Ed FEB, 1999
(7) idem
(8) Nos dias de hoje essa denominação representa a prática de uma técnica, já desenvolvida há muitos anos em outros países, utilizando meios modernos para a preparação de corpos humanos, vitimados das mais variadas formas de óbitos. Corresponde a aplicação correta de produtos químicos em corpos falecidos, visando à desinfecção e o retardamento do processo biológico de decomposição, permitindo a apresentação dos mesmos em condições surpreendentemente melhores para o velório.
(9) Simonetti Richard. Quem tem medo da morte?, 22ª edição, São Paulo: Gráfica São João, 1995
(10) ESE-cap XXVIII it 59]
(11) Richard. Quem tem medo da morte?, 22ª edição, São Paulo: Gráfica São João,1995
(12) Vieira, Waldo. Conduta Espírita, RJ: Ed FEB, 1999
(13) idem
(14) idem
(15) Richard. Quem tem medo da morte?, 22ª edição, São Paulo: Gráfica São João, 1995
(16) Denis, Léon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor, RJ: Ed FEB, 1993

Comentários

  1. Achei muito interessante este artigo, concordo que infelizmente os velórios estão sendo muito explorados financeiramente, esquecendo do verdadeiro significado deste acontecimento.

    Abraços Tati 100% mística

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  2. Belo post, condiz com a conduta de que os velórios hoje em dia estão virando um comércio, deixando de lado o que realmente significa. Para nós, apenas uma passagem no qual todos estão convidados.

    Paz e Luz!

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  3. Sr. Hessen,

    Lastimável o seu proceder quanto a imagem erronea que descrevera o pastor. Certamente, a família quando o convidou para dizer algumas palavras pensara nos entes queridos que escutariam o que acreditam ser a verdade. O fato de ter espíritas, ou qualquer outro conhecido de qualquer que seja a crença independe da vontade dos familiares, voce que deve manter sua educação, ouvir ou não. Muito pelo contrário, sua afirmativa quanto a salvação foi preconceituosa e descabida, pois deixa evidente de que não tem algum conhecimento do que fala. A salvação nos foi dada pelo simples fato de crermos e aceitarmos que Deus entregou e sacrificou Jesus, Seu Filho para morrer por nós - o dízimo em nada paga a salvação. Entretanto, os espíritas sim, acreditam que se tornarão mais evoluídos dependendo de suas obras, ou seja, não compro minha salvação, faço o bem porque é mandamento de Deus e não para mérito próprio. Outro ponto, nós cristãos não somos narcotizados, cremos no que cremos e o termo foi tão ofensivo quanto o que colocara como inoportuna a mensagem do pastor. Ora, a alma do morto já não está mais no corpo físico, de nada interferirá o que ele decidiu em vida, morreu, acabou, porém aos que continuam vivos ainda cabe ouvir e discernir o que realmente querem buscar depois. Desencarnou, ou estará com Deus, ou estará com o Diabo- fazemos escolhas enquanto estamos vivos. Seria muito egoísmo acreditar que encarnaremos novamente em outro ser, voltar cada vez mais para aprender, corrigir alguns erros vagos, evoluir? Se fosse assim que Deus tivesse feito a existência, o mundo estaria cada vez melhor ao invés de nos depararmos com tanta falta de respeito, caridade e amor à Deus.
    O resto do seu artigo em relação ao comércio em velório, banalização do ser humano é válida. Felizmente é apenas a última passagem que faremos rumo a vida eterna com Cristo Jesus.
    Ana Tutui

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  4. Entendo a posição do Fabiano ao colocar esse post do Sr. Hessen, bem escrito, belas palavras, bem embasado nas obras básicas e complementares. Um texto interessante. Mas, ao ler esse texto me perguntei: Em que nós Espíritas realmente acreditamos Sr. Hessen? Basicamente, não seria na imortalidade da alma e na evolução espiritual através de nossos esforços em cada reencarnação e no mundo espiritual? Pois é, também acho. A cada um conforme suas obras e nossas obras não podem, e nem devem, estar apenas no papel e nas nossas leituras, afinal de contas Somos Espíritas e temos mais responsabilidades que o leigo ou aquele que NÃO estudou o Espiritismo. Baseado nisso pergunto a você: - Quando nós Espíritas vamos realmente fazer nosso papel que é o de compreender a nós mesmos, amarmos a nós mesmos para que possamos passar perto do entendimento do nosso próximo? Quando vamos colocar nossas teorias na prática e eliminar essa distância (as vezes abissal)? Não seria mais confortável nós nos lembrarmos que o respeito aos mortos já é muito, mas muito antigo e que ainda existem Espíritos (sim.. imortais Espíritos) que ainda veneram seus mortos seja por tranquilidade emocional, confirmação do que talvez não quisessem entender ou aceitar, dar conforto aos amigos, receber o conforto de amigos (as vezes até distantes por anos), relembrar momentos bons e experências que foram passadas com o recém desencarnado do que simplesmente achar descabida essa reunião? O amigo deve ter visto um filme Filadélfia onde Tom Hanks faz um papel maravilhoso de aidético. Pois ao final do filme há uma confraternização na morte, belíssimo não? Já em outras estruturas sociais o choro, a ira, a auto-punição, os gritos são as ferramentas que os amigos e parentes utilizam para maximizar o ocorrido.. Não vamos agradar a todos, sei disso, mas DEVEMOS procurar entender ao máximo de pessoas possíveis, pelo simples fato de que isso faz com que eu cresça e evolua moralmente e socialmente, o nosso objetivo (conforme acredito que seja). Houve certa época um filósofo, acho que Sêneca, que disse algo parecido com: "mesmo que eu tenha um pensamento contrário a sua exposição, vou defender que exponha sempre seus pensamentos em público, para que eu também possa fazê-lo na hora que me aprover, pois desta forma é que teremos pessoas com mais informações relevantes e maior amplitude da democracia". Um forte abraço.
    Julio Cesar Biscardi

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