Homens Maus, Espíritos Maus


A criatura humana, em todos os quadrantes do globo, mais especialmente no chamado ‘terceiro mundo’, fica abismada com a vulgarização da violência e banalização da barbárie, onde crianças literalmente dizimam dezenas de vidas de seus colegas em escolas, filhos atacam pais mortalmente, dirigentes falsamente religiosos abusam sexualmente de seus assistidos, e por aí afora.

Parece mesmo que a humanidade está presa de uma obsessão coletiva, insuflada por espíritos malignos e desejosos de destruição da moral e da sociedade organizada.

Mas, pergunta-se: se há um verdadeiro ataque das trevas -- o que, sob a ótica Espírita, pode ser bastante provável -- como isso pode acontecer?

Eis a resposta simples, direta e clara contida sem rodeios no Evangelho Segundo o Espiritismo (cap. XII, item 6): “Se não houvesse homens maus na Terra, não haveria Espíritos maus ao seu derredor”.

É fácil de deduzir e afirmar que o mal não é da criação divina, mas fruto do exercício irregular do livre-arbítrio das criaturas. Mas, não de todas e quaisquer criaturas; apenas a criatura humana, ou seja, o denominado ‘animal superior’, dotado de pensamento contínuo, da luz da razão e detentor do livre-arbítrio, pois que as demais criaturas (minerais, vegetais e animais propriamente ditos ou ‘inferiores’, nos quais o chamado Espírito ou Princípio Inteligente/Espiritual estagia na escalada evolutiva) não possuem vontade e são sujeitos passivos da Lei Natural.

Numa palavra, quem detém o pensamento contínuo é que é possuidor e capaz de exercitar a vontade e, assim, é exclusivamente quem pode violar a Lei e produzir o mal: “O bem é tudo que é conforme a lei de Deus; o mal, tudo o que lhe é contrário. Assim, fazer o bem é proceder de acordo com a lei de Deus. Fazer o mal é infringi-la”, conforme sábia definição dos Espíritos (Livro dos Espíritos, parte 3ª, cap. II, questão 630).

Atente-se para uma curiosa situação aclarada pelos mesmos Espíritos encarregados de orientar a Codificação Espírita (idem, parte 2ª, cap. VI, questão 272) para explicar os casos de verdadeira ferocidade humana dentro da civilização: Pergunta Kardec aos Espíritos: “Poderá dar-se que Espíritos vindos de um mundo inferior à Terra, ou de um povo muito atrasado, como os canibais, por exemplo, nasçam no seio de povos civilizados? Resposta: Pode. Alguns há que se extraviam, por quererem subir muito alto. Mas, nesse caso, ficam deslocados no meio em que nasceram, por estarem seus costumes e instintos em conflito com os dos outros homens.” Da mais alta compreensão é a complementação que o próprio Codificador faz ao pé dessa questão: “Tais seres nos oferecem o triste espetáculo da ferocidade dentro da civilização. Voltando para o meio dos canibais, não sofrem uma degradação; apenas volvem ao lugar que lhes é próprio e com isso talvez até ganhem.”

No mesmo sentido e até mais enfaticamente a questão 786 do mesmo Livro dos Espíritos trata do assunto com uma belíssima figura que nos aclara de vez essa relação entre Homens maus e Espíritos maus. Pergunta Kardec: “Mostra-nos a História que muitos povos, depois de abalos que os revolveram profundamente, recaíram na barbaria. Onde, neste caso, o progresso?” E os Espíritos responderam com uma metáfora digna das parábolas de Jesus, tal a beleza e profundidade: “Quando a tua casa ameaça ruína, mandas demoli-la e constróis outra mais sólida e mais cômoda. Mas, enquanto esta não se apronta, há perturbação e confusão na tua morada. Compreenda mais o seguinte: eras pobre e habitavas um casebre; tornando-se rico, deixaste-o, para habitar um palácio. Então, um pobre diabo, como eras antes, vem tomar o lugar que ocupavas e fica muito contente, porque estava sem ter onde se abrigar. Pois bem! Aprende que os Espíritos que, encarnados, constituem o povo degenerado não são os que o constituíam ao tempo do seu esplendor. Os de então, tendo-se adiantado, passaram para habitações mais perfeitas e progrediram, enquanto os outros, menos adiantados, tomaram o lugar que ficara vago e que também, a seu turno, terão um dia de deixar.”

Essa, pois a razão que o Espiritismo trabalha a melhoria do homem, por sabê-lo imortal e perfectível, desempenhando a função específica no tratamento das doenças que fustigam a humanidade, como verdadeira terapêutica da alma. Diz Emmanuel (Leis de Amor, cap. VII, item 6) que o ponto fundamental do socorro espírita residem na “educação individual, e, evidenciando a reencarnação, destaca o impositivo da tolerância mútua, por terapêutica espiritual imediata, a fim de que os pontos nevrálgicos do indivíduo ou do grupo sejam definitivamente sanados.”

O Espiritismo, assim, prepara o Ser imortal -- que somos nós mesmos -- para a mais breve regeneração a que estamos fadados todos, apesar de parecer que o mal prevalece em todas as esferas humanas, o que não é verdade. O que ocorre é que “os maus são intrigantes e audaciosos, os bons são tímidos. Quando estes quiserem, preponderarão.” (questão 932 do Livro dos Espíritos).

“Somente o progresso moral pode assegurar aos homens a felicidade na Terra, refreando as paixões más; somente esse progresso pode fazer que entre os homens reinem a concórdia, a paz, a fraternidade” (A Gênese, Cap. XVIII, item 19).

Essa a postura e a missão abraçada pelo Espiritismo para impulsionar a alcançar-se o Mundo de Regeneração a que está destinada a humanidade do Planeta.


Francisco Aranda Gabilan

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