O inferno é eterno?




Afinal, como surgiu a ideia de um inferno eterno? Jesus ensinou isso? Está na Bíblia?



Vejamos a etimologia e os significados dos adjetivos “sempiterno” e “eterno”: “Olam”, em hebraico, significa eterno e é procedente do verbo “âlam” (ocultar). Eterno quer dizer, pois, oculto. E, em grego, a língua em que foi escrito o Novo Testamento, o substantivo “aêon”, traduzido para a Vulgata Latina de são Jerônimo por “eternitas” (eternidade ou tempo indefinido), é um termo derivado de “oetas” (idade, período).

Vida e inferno eternos são de tempos indeterminados e não para sempre. Há lógica nisso, pois de acordo com a nossa evolução espiritual, os períodos de existência do espírito vão-se transformando para melhores ou de mais felicidade. E o inferno eterno é realmente de duração indeterminada, porque depende do carma de cada um. “Ninguém deixará de pagar até o último centavo” (Mateus 5,26; e Lucas 12,59), ou seja, até o espírito se tornar purificado. E dessa verdade sobressaem-se duas outras verdades evangélicas: uma é a de que não existem penas sempiternas e a outra é que somos nós mesmos que temos que pagar os nossos pecados e não o sangue derramado de Jesus, que foi mais um pecado, além de o Espírito perfeito de Deus não gostar de sangue derramado. Ademais, de acordo com a Bíblia e todas as outras escrituras sagradas, nós colhemos o que plantamos. “A cada um será dado segundo suas obras” (Apocalipse 20,12; e 1 Pedro 1,17). Assim é a justiça divina, que seria imperfeita se fosse de pena sempiterna ou sem fim para faltas limitadas.

Os autores do Novo Testamento conheciam bem a Língua de Platão, na qual o escreveram. Assim, se eles quisessem dar uma ideia de um tempo sem fim para uma pena ou fases da vida do espírito, eles não teriam empregado o termo “aêon” (eternidade ou tempo indeterminado), como o fizeram, mas a palavra grega “aidios” (tempo sem fim). Também São Jerônimo, o tradutor da Vulgata, latinista de boa cepa que era, se ele quisesse dar uma ideia de um tempo para sempre, teria usado em sua versão para o latim o vocábulo sempiternus (sempiterno ou para sempre) e não “aeternus” (eterno ou tempo indeterminado). Além das alterações de sentido dessas palavras, eterno acabou tendo também, em português, o significado de sem princípio e sem fim, um atributo só para Deus.

Essas interpretações erradas dos originais bíblicos sobre o termo eterno são culpa dos teólogos. E podemos admitir que eles agiram de boa fé nesses equívocos. Mas é lamentável que os teólogos cristãos de hoje mantenham esses erros e outros dos seus colegas do passado. E uma das causas desses erros está no fato de, muitas vezes, os teólogos terem tido uma fé cega. Tertuliano, um gênio da teologia e doutor da Igreja, do 2º e 3º séculos, mas que foi também um herege montanista da teologia de Montano, deixou-nos uma conhecida frase de fé cega: “Credo quia absurdum” – “Creio porque é absurdo” –, embora alguns teólogos queiram dar uma interpretação diferente a essa frase.

Com a evolução, toda fé cega tende a desaparecer, pois ela só teve vez mesmo enquanto foi amparada pela força. E os teólogos do passado transformaram em dogmas todas as doutrinas polêmicas baseadas na fé cega, exatamente, porque eles próprios já sabiam que elas seriam rejeitadas por outros teólogos mais teólogos do que eles.

Cabe aos teólogos atuais substituírem as doutrinas de fé cega por outras de fé raciocinada e lógica, porque esta, sim, não é eterna, mas, sempiterna e a única capaz de por fim à crise que assola o cristianismo!

Fonte: Revista Cristã do Espiritismo
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Sobre o autor: CELESFA

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