Não vamos fazer nada?

A pergunta acima, apresentada pela revista Veja, na matéria de capa da edição de 14 de fevereiro de 2007, tem a ver com a morte cruel do pequeno João Hélio, de 6 anos. A família retornava de um Centro Espírita localizado no Bairro Bento Ribeiro, Zona Norte do Rio, quando, por volta de 21 horas, foi abordada por três jovens (um deles tinha 18 anos e outro menos de 18). Tomaram o veículo dirigido pela mãe e saíram em alta velocidade arrastando pelo asfalto o pequeno João preso pela cintura ao cinto de segurança.

O crime aturdiu a opinião pública e Veja, sempre atual, apressou-se em apresentar o fato levando-nos a reflexões muito duras: Não vamos fazer nada? - indaga o articulista, num convite explícito à sociedade a se mobilizar no sentido de evitar que tragédias como essa voltem a acontecer.

Homicídios assim e tantos outros que todos os dias se verificam em nosso país e fora dele acontecem em virtude do nível evolutivo de almas reencarnadas na Terra, que segundo Allan Kardec é um planeta onde predomina o mal. Espíritos ainda muito próximos de sua origem ou recalcitrantes no erro deixam-se dominar pelos instintos selvagens permitindo que suas ações sejam moldadas pela perversidade, pelo egoísmo e pela soberba.

O que fazer? - perguntamos a nós mesmos. A resposta é complexa, porque envolve múltiplas variantes, quase todas elas de conteúdo moral. Ousamos apresentar algumas propostas, alicerçadas no conhecimento espírita.

Primeira: Os criminosos deverão ser afastados do convívio social pelo tempo necessário a uma moralização mínima que lhes permita viver em contato com a sociedade. Estarão reclusos em locais que tenham pelo menos um mínimo de dignidade e sofrerão rigoroso processo educativo moral em bases cristãs.

O Espírito Camilo, através da médium Yvonne Pereira se reporta a criminosos recalcitrantes que ficam reclusos em departamentos prisionais de colônias espirituais apropriadas, submetendo-se à psicoterapia estruturada no Evangelho de Jesus.

Segunda: Em muitos casos, serão responsabilizados também, devendo acompanhá-los nos seminários de moral evangélica, os pais (particularmente aqueles que fugiram da responsabilidade, abandonando-os à sorte alheia ou tratando-os de forma cruel ou pervertida). Deverão oferecer-lhes agora todo o afeto que negaram antes, buscando o perdão e o entendimento.

Os estudos envolvendo criminosos têm mostrado que grande parte deles vem de relações familiares muito difíceis e conflituosas: pais ausentes ou alcoólatras, mães levianas e agressivas. Muitos foram vítimas de maus tratos na infância, ou até mesmo violência sexual no lar.

Terceira: As autoridades políticas, civis, jurídicas, militares ou qualquer outra estarão proibidas de mentir, furtar, corromper, desviar recursos, beneficiar-se a si ou a seus familiares dos cargos que ocupam. Se não agirem assim, serão punidas como qualquer cidadão. O exemplo deve vir de cima. Se os que detêm o poder não se mostram honrados e dignos, o que esperar dos demais?

Uma socióloga paulista, passeando pela praia de Copacabana, observou um engraxate cobrar cinqüenta reais de um turista estrangeiro, pela limpeza do par de sapatos. Ao admoestá-lo quanto àquela atitude, ouviu dele o seguinte: Esse aqui, dona, é o meu mensalão!

Quarta: As pessoas mais bem estabelecidas socioeconomicamente esbanjarão menos seus recursos pecuniários, utilizando-se deles de forma sóbria e útil à sociedade, através da promoção de trabalho remunerado com dignidade. O dinheiro e o poder são dados a Espíritos reencarnados com a missão de promover o progresso e abrir frentes de trabalho. Chico Xavier dizia que o dinheiro é como o sangue. Se estocado, coagula e causa doenças; se está circulando, leva oxigênio e saúde aos tecidos.

Quinta: A imprensa e os meios de publicidade deixarão de divulgar idéias que estimulam a cobiça e agridem aos mais pobres, apresentando tudo aquilo que eles jamais poderão ter como sendo condições essenciais a felicidade.

A agressividade e a violência na espécie humana muitas vezes surgem do sentimento de humilhação quando um indivíduo se compara com outro. A inveja tem papel preponderante nas ações humanas. O comportamento da mídia em geral e das campanhas publicitárias em particular expõe, de forma até mesmo cruel, a enorme diferença social existente em nosso país, incitando ao ódio e conseqüentemente à violência.

Sexta: A TV fará uma revisão completa de sua programação, deixando de invadir nossos lares com idéias vazias, que estimulam a licenciosidade e promovem o desrespeito aos valores de honestidade, responsabilidade e compromissos afetivos.

Em um país budista localizado no Himalaia, de nome Butão, seus habitantes nunca tinham visto televisão. Em 1999, o rei introduziu ali uma rede de TV. De lá para cá, aumentaram de forma significativa, naquela nação, os índices de adultério, dependência química, violência e criminalidade.

Sétima: Os usuários de drogas ilícitas jamais voltarão a usá-las, pois eles são cúmplices de grande número de crimes que se dão próximos ou distantes deles. É o usuário que alimenta o tráfico. Sem consumo, não há venda. Sem venda, fecha-se um canal importante de violência.

Oitava: A classe média deverá envolver-se diretamente com os problemas sociais, assumindo a responsabilidade que lhe compete na instrução dos menos favorecidos, dando-lhes as oportunidades que merecem e a inclusão a que têm direito.

A indiferença perante as necessidades alheias gera uma postura de comodismo e de transferência de responsabilidade. Todos precisam se envolver e dar a sua contribuição.

Nona: As lideranças religiosas viverão de forma simples e sóbria e deverão estar ao lado dos fiéis, vivenciando suas angústias e acolhendo-os com fraternidade, fazendo como Jesus, que tinha como templo a natureza e como oração a prática do bem.

O objetivo da religião é a ligação do homem com Deus. Só se pode ligar-se a Deus, ligando-se aos homens, sua obra.

Décima: Cada um de nós fará diariamente uma longa viagem interior para identificar em nós o germe da crueldade e da indiferença, assumindo um compromisso de jamais lesarmos ou prejudicarmos nosso semelhante, assumindo aquilo que nos compete no processo de engrandecimento moral do planeta.

O remédio é amargo, mas para enfermidades longas e graves a terapia tem que ser profunda. A problemática da criminalidade e da violência não encontrará solução em decretos que digam apenas o que os outros têm que fazer, sem promover reformas em toda a coletividade.

A Terra será um mundo melhor, quando nós formos pessoas melhores.

Ricardo Baesso de Oliveira
Kargabrl@uol.com.br
Juiz de Fora, Minas Gerais (Brasil)

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