Um amor além do tempo


Até onde vai a sua capacidade de amar? Por quanto tempo você continuaria a amar alguém que desaparecesse de sua vida?

Foi a inimaginável condição de amar daquela mulher chinesa que chamou a atenção da jornalista.

Quando entrou em sua sala, para a entrevista, as roupas tibetanas que portava exalavam um cheiro forte de pele de animal, leite azedo e esterco.

Era uma indumentária, ao mesmo tempo vestuário, mochila, esteira e travesseiro.

A túnica era provida de bolsos internos para livros e dinheiro. O lado de dentro da cintura da túnica escondia dois grandes sacos de couro, destinados a acondicionar comida para as viagens.

Para dormir, a túnica servia de esteira e os grandes sacos de couro de coberta.

Ela havia se casado nos idos de 1958. Menos de 100 dias depois, seu marido, um médico do exército chinês de libertação do povo, foi mandado para o Tibete.

Dois meses depois, ele foi dado como perdido.

A jovem esposa de 26 anos se recusou a aceitar a sua perda daquela forma e decidiu partir à sua procura.

Por onde andaria seu amor? Teria ela que resgatá-lo de alguma condição muito ruim?

Decidida, se juntou ao exército, na qualidade de médica. Era a única forma de viajar para o Tibete, naqueles anos difíceis.

Andou por terras montanhosas, habitadas por uma mistura de mongóis, tibetanos e chineses.

Shu Wen se tornou budista tibetana e procurou seu amor, durante 30 anos.

Experimentou o que era viver em silêncio, experienciou severas condições de vida, sentiu-se esmagar pela altitude, pelo vazio da paisagem...

O que terá sofrido aquela jovem, enquanto os anos lhe amadureciam a personalidade e lhe deixavam áspera a pele e trêmulas as mãos?

Ela testemunhou a incrível engenhosidade do povo tibetano, que consegue viver com escassos recursos.

Viu comida escondida na terra congelada para ser recolhida depois, madeira armazenada embaixo de pedras para servir de combustível, pedras empilhadas para indicar direções.

Conheceu homens que costuravam e mulheres multicoloridas que tilintam.

Porque as roupas tibetanas são feitas à base de couro e metal, costurá-las é um trabalho fisicamente pesado, pelo que é, principalmente, uma ocupação masculina.

E as mulheres tibetanas, não importa quão pobres sejam, dão grande importância às suas jóias. Por isso, onde quer que vão, quando se movem, lá está o tilintar de sininhos e guizos.

Trinta anos de peregrinação por regiões inóspitas, enfrentando frio, fome, solidão. Sempre adiante.

Uma mulher que aprendeu a se defender do tempo, da maldade e alimentou a sua busca com a doçura do amor reservado para quem era o objeto de todas suas andanças: o marido.

* * *

Nesses dias, em que os relacionamentos conjugais parecem tão frágeis, em que os consórcios se desfazem por tudo e por nada, o exemplo dessa mulher leva a concluir que o verdadeiro amor não morre nunca.

O verdadeiro amor tudo vence, porque guarda a certeza de que o ser amado é credor inconteste de sua dedicação, paixão, luta e esperança.

Pensemos nisso.

Redação do Momento Espírita com base no cap.
25 de junho de 2004, do livro O que os chineses
não comem, de Xinran, ed. Companhia
das Letras

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