Atire a primeira pedra

Célia Xavier Camargo


Certa ocasião, eu recebi uma carta que me comoveu profundamente. Tratava-se de um rapaz de vinte e poucos anos, que chamarei de Antonio Carlos, e que cumpria pena numa penitenciaria do Estado de São Paulo. Narrava-me ele a sua historia. O pai era alcoólatra e a mãe dava um duro danado como empregada diarista par manter os oito filhos. Como os recursos eram reduzidos, faltava tudo em casa e ele tornou-se menino de rua, ligando-se ao submundo do crime desde pequeno. Ladrão e traficante aos nove anos, não hesitava em usar o revolver durante um assalto, quando necessário.

Após dezenas de passagens pela policia e pela Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor (FEBEM), interessou-se por uma entidade de amparo aos meninos e meninas de rua, a qual era liderada por uma educadora. Desenvolvendo ligação afetiva com esse grupo, Antonio Calos passou a visitá-lo freqüentemente. Foi, inclusive, entrevistado pela Revista Veja, que publicou extensa matéria sobre sua vida, há nove anos.

Atingindo a maioridade e depois de inúmeras transgressões, acabou sendo apanhado pela policia, julgado e sentenciado há vários anos de reclusão. Na penitenciária, começou a freqüentar um grupo que em determinado dia da semana visitava a prisão. Esse grupo viabilizou o seu contato com a Doutrina Espírita. Lendo o livro "Céu Azul", de Cesar Augusto Melero, ficou muito impressionado, e descobrindo meu endereço, escreveu-me a carta citada. Falava-me ainda, nessa correspondência, do desejo de melhorar de vida, mas também das dificuldades que enfrenta. Tem enorme desejo de ser escritor e vem anotando suas memórias para mostrar as pessoas o quanto uma criatura pode errar, para que os jovens não tomem o caminho que ele havia tomado.

Em virtude do uso constante de drogas acabou sendo contaminado pelo vírus HIV. Aidético já há alguns anos tem a consciência de que não resistirá por muito tempo, mas conserva o coração cheio de esperança. Pede ajuda ao grupo de jovens desencarnados de Céu Azul, pois experimenta grande mal-estar e angustia que não sabe explicar. Condoídos com a situação de Antonio Carlos, em uma de nossas reuniões na Sociedade Espírita Maria de Nazaré, fizemos uma vibração por ele, e neste instante dois espíritos que estavam junto dele foram socorridos. Um deles era seu amigo e colega de rua, que desencanara com AIDS e que permanecia junto dele; o outro era alguém que lhe desejava vingança por ter-lhe tirado a vida. Logo após a essa ajuda, com certeza, seu estado deve ter melhorado bastante. Alguns componentes do nosso grupo mediúnico também trocaram correspondência com ele.

Recebi ainda outras duas cartas de Antonio Carlos as quais eu respondi enviando-lhe junto alguns livros espíritas; depois não tivemos mais noticias dele. De vez em quando sinto vontade de saber como ele está. Terá mantido seus propósitos de regeneração? Ou quem sabe não esteja mais entre nós? Lembro-me ter ele afirmado que logo sairia da prisão e que, quando isso acontecesse, gostaria de fazer-nos uma visita. Porém, nunca mais tivemos noticias dele. Sabemos que ninguém está sozinho. Benfeitores Espirituais, amigos, parentes, certamente devem estar amparando-o, protegendo-o, para que mantenha sua boa disposição, refazer sua vida e o desejo de progredir. Desde essa época nosso grupo estabeleceu ligação afetiva com ele. Onde estiver, possa Antonio Carlos saber que nos preocupamos com ele e que lhe desejamos o melhor. Se estiver no mundo espiritual, não será difícil obtermos informações sobre seu paradeiro.

Bendita Doutrina Espírita que nos esclarece, reconforta e ilumina.

Em pleno século XXI, ainda vemos criaturas disseminando idéias a favor da pena de morte, acreditando que morto o homem, acabam-se os problemas. Prematuramente liberto, o espírito criminoso continuará fomentando o mal e prejudicando seus semelhantes. Preso num corpo físico, poderá ele recuperar-se, progredindo e tornando-se alguém digno e útil a sociedade e a si próprio. A pena de morte deixará de fazer parte um dia na legislação humana, quando a sociedade estiver mais esclarecida, assinalando esse fato um progresso para a humanidade. Certamente Antonio Carlos terá grandes débitos a reparar. Se não puder fazê-lo nesta existência, com certeza o fará em outras.

A verdade é que todos nós somos espíritos criados por Deus para a perfeição, e chegaremos lá um dia, não importa o tempo transcorrido.

Quando tivermos vontade de emitir um julgamento, ou pensarmos que um criminoso merece a pena de morte, lembremo-nos de Jesus, o Celeste Crucificado, que morreu numa cruz sem culpa e que nos deixou a lição do amor: " Atire a primeira pedra aquele que estiver sem pecado." Também aprendemos no Evangelho que o Cristo não veio para os são, mas para os doentes, assim, podemos afirmar, quem somos nós para julgar?

Com razão estava o nosso querido Chico Xavier, hoje na Espiritualidade, quando disse que "criminoso é apenas aquele que foi descoberto." No fundo, através do tempo, todos somos infratores da lei divina a caminho da regeneração.

Célia Xavier Camargo é bacharel em Contabilidade e Direito, oradora e jornalista espírita. Junto com seu esposo fundou o Lar Infantil "João Leão Pitta" em Rolândia/PR, onde são os atuais diretores. Fonte: Delfos Revista Literária Espírita - Ano II - Edição 6. Nº 12

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Sobre o autor: Geraldo V Laps

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