Esquecimento do Passado


É comum ouvirmos, de pessoas que ainda não se dedicaram a um estudo mais sério da Doutrina dos Espíritos, observações que, à primeira vista, parecem lógicas, e que, no entanto, representam apenas o resultado do desconhecimento sobre a realidade global da vida terrena. Argumentam eles:

Se existe a tão perfeita Justiça Divina pregada pelos espíritas, como poderá ela permitir que soframos, se não sabemos o porquê desse sofrimento?

R: Todo réu tem o direito de saber por que está sendo condenado!

A dúvida é bastante compreensível, e antes de mais amplas considerações, iniciaremos a resposta com outra pergunta:

Que benefício traria à criatura conhecer os acontecimentos de seu passado encarnatório?

A Lei da Evolução a que somos compulsoriamente submetidos visa sempre as condições de vida que melhores avanços proporcionem ao nosso adiantamento. A simples curiosidade nenhum interesse traria para o progresso que devêssemos conquistar.

Apagando da memória espiritual os acontecimentos do passado, Deus nos oferece um recomeço, sem os inconvenientes que adviriam como conseqüência daqueles conhecimentos. Além disso, há um raciocínio primário a estabelecer: se aqui estamos encarnados, ocupando um envoltório material, será óbvio admitir que precisamos concluir tarefas que ficaram inacabadas, ou pendentes, em romagens terrenas anteriores ou conquistar conhecimentos ainda não incorporados ao nosso acervo, ou mais ainda, exercitarmos os elevados atributos morais da alma, para fazermos jus à ventura que nos aguarda no futuro.

A pluralidade das existências é a maneira de nos aperfeiçoarmos moral e espiritualmente, através do nascer, viver, morrer e renascer. A vida na Terra, pois, não é obra do acaso! Ela tem finalidade: o progresso do Espírito! Ou será que alguém conhece outro objetivo que a justifique? Se o corpo material se extingue no túmulo, que outro raciocínio poderá ser estabelecido para explicar a vida material? Ou Deus poria no mundo suas criaturas para em seguida destruí-las, sem nada restar delas?

Vamos supor, como hipótese, que fosse dado ao encarnado descobrir, em sua integralidade , os acontecimentos das vidas anteriores, com todo o realismo de seus pormenores. Se isso acontecesse, certamente passaríamos a conhecer aqueles que foram nossos desafetos ou agressores, como também aqueles a quem houvéssemos feito algum mal. As conseqüências daí decorrentes não serão difíceis de deduzir. As hostilidades mútuas poderiam ser restabelecidas; os constrangimentos de parte a parte seriam inevitáveis; a vergonha pelos pecados, traições e crimes cometidos anteriormente tornariam insuportável a convivência comum.

Por outro lado, sabendo a gravidade dos erros anteriores, conheceríamos as penalidades a que estaríamos sujeitos, o que nos traria extremas angústias e aflições; sem nos referirmos aos mais fracos que, ao sabê-las, procurariam evadir-se da vida pela porta larga do suicídio.

Verificamos, assim, que o esquecimento do passado, longe de ser uma injustiça, é, pois, acréscimo de misericórdia de nosso Pai, que melhor sabe o que convém à nossa felicidade a à nossa paz. Além disso, Deus não forja sofrimentos para nós; eles são inscritos na natureza intrínseca de nosso perispírito, por nós próprios!

Outra observação muito freqüente é ser questionada a bondade de Deus e seu amor pelas criaturas, alegando:

Se os nossos erros e pecados são resgatados a peso de sofrimento, cobrando-nos a Justiça Divina o mal que fizemos alhures com outro mal de intensidade proporcional ao que praticamos, não será isto um ato de vingança? Não se caracteriza neste caso aplicação da lei do “olho por olho, dente por dente”? Este não é freqüentemente o modo de proceder dos homens, que infligem aos seus agressores sofrimentos em represália ao mal recebido?

Ainda aqui, iniciaremos a resposta com uma pergunta:

Que outra maneira mais exata teria o Espírito de conhecer as conseqüências dos sofrimentos, vicissitudes, aflições e infortúnios em geral causados aos semelhantes, senão experimentando, ele próprio, o sabor daquelas amarguras impostas aos outros?

Ademais, o objetivo do automatismo da Justiça divina não é punir, mas fazer aprender. O Pai Celestial, em Sua soberania, não se compraz com os sofrimentos das suas criaturas, o que seria um formal desmentido à sua infinita bondade mas deseja que a constatação do erro leve ao arrependimento e à correção conseqüente, vencendo mais rápida e radicalmente as fraquezas, os erros e as velhas chagas da alma, que mantêm os homens cativos da inferioridade e do mal.

Reformador - Mauro Paiva Fonseca

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