Autenticidade pela Universalidade do Ensinamento

Matéria publicada no Jornal Mundo Espírita :: fevereiro/2007


Mundo Espírita – É sabido que foi através de seu amigo, Sr. Fortier, que o senhor ouviu falar pelas primeiras vezes nos fenômenos das mesas girantes, e também se sabe que nessas ocasiões o assunto não lhe despertou maior interesse. Em que momento isso aconteceu de fato?

Allan Kardec – Pelo mês de maio de 1855, fui à casa da sonâmbula Sra. Roger, em companhia do Sr. Fortier, seu magnetizador. Lá encontrei o Sr. Pâtier e a Sra. Plainemaison, que daqueles fenômenos me falaram no sentido em que o Sr. Carlotti já se pronunciara, mas em tom muito diverso. O Sr. Pâtier era funcionário público, de certa idade, muito instruído, de caráter grave, frio e calmo; sua linguagem pausada, isenta de entusiasmo, produziu em mim viva impressão e, quando me convidou a assistir às experiências que se realizavam em casa da Sra. Plainemaison, à rua Grange-Batelière, 18, aceitei imediatamente.

ME – E quando se deu essa sua primeira reunião?

AK – A reunião foi marcada para uma terça-feira de maio às oito horas da noite.

ME – E por que essa reunião mereceu seu destaque no exame dos fenômenos das mesas girantes e na história do Espiritismo?

AK – Foi aí que pela primeira vez, presenciei o fenômeno das mesas que giravam, saltavam e corriam, em condições tais que não deixavam lugar para qualquer dúvida. Minhas idéias estavam longe de precisar-se, mas havia ali um fato que necessariamente decorria de uma causa. Eu entrevia, naquelas aparentes futilidades, no passatempo que faziam daqueles fenômenos, qualquer coisa de sério, como que a revelação de uma nova lei, que tomei a mim estudar a fundo.

ME – Outras ocasiões importantes se somaram a essa?

AK – Bem depressa, ocasião se me ofereceu de observar mais atentamente os fatos, como ainda o não fizera. Numa das reuniões da Sra. Plainemaison, travei conhecimento com a família Baudin, que resi-dia então à rua Rochechouart. O Sr. Baudin me con-vidou para assistir às sessões hebdomadárias que se realizavam em sua casa e às quais me tornei desde logo muito assíduo.

ME – Quem eram os médiuns nessas reuniões?

AK – Os médiuns eram as duas senhoritas Baudin. Aí tive ensejo de ver comunicações contínuas e respostas a perguntas formuladas, algumas vezes, até, a perguntas mentais, que acusavam, de modo evidente, a intervenção de uma inteligência estranha.

ME – Quando começou seus estudos de Espiritismo e qual método utilizou para esses estudos?

AK – Foi nessas reuniões que comecei os meus estudos sérios de Espiritismo, menos, ainda, por meio de revelações, do que de observações. Apliquei a essa nova ciência, como o fizera até então, o método experimental; nunca elaborei teorias preconcebidas; observava cuidadosamente, comparava, deduzia conseqüências; dos efeitos procurava remontar às causas, por dedução e pelo encadeamento lógico dos fatos, não admitindo por válida uma explicação, senão quando resolvia todas as dificuldades da questão.

ME – Os ensinos dos espíritos, individualmente, têm o caráter de verdade?

AK – Estamos longe de aceitar como verdades irrecusáveis tudo quanto ensinam individualmente; um princípio, seja qual for, para nós só adquire autenticidade pela universalidade do ensinamento, isto é, por instruções idênticas, dadas em todos os lugares, por médiuns estranhos uns aos outros.

ME – E como o senhor tem acesso a esse conjunto de informações que lhe permitem tal análise e com tais critérios?

AK – Em nossa posição, recebendo comunicações de cerca de mil centros espíritas sérios, disseminados em diversos pontos do globo, estamos em condições de ver os princípios, sobre os quais houve concordância. Sem essa concordância, quem poderia estar seguro de ter a verdade? É, aliás, um dos caracteres distintivos da revelação nova o de ser feita em toda parte ao mesmo tempo.

ME – Os textos que constituem O Livro dos Espíritos, como foram obtidos?

AK – Tudo foi obtido pela escrita, por intermédio de diversos médiuns psicógrafos. Nós mesmos preparamos as perguntas e coordenamos o conjunto da obra; as respostas são, textualmente, as que nos deram os Espíritos; a maior parte delas foi escrita sob nossas vistas, outras foram tiradas de comunicações que nos foram remetidas por correspondentes ou que colhemos aqui e ali, onde estivemos fazendo estudos. Os primeiros médiuns que concorreram para o nosso trabalho foram as senhoritas Baudin. Mais tarde os Espíritos recomendaram uma revisão completa em sessões particulares, tendo-se feito, então, todas as adições e correções julgadas necessárias. Esta parte essencial do trabalho foi feita com o concurso da senhorita Japhet.

ME – E assim nasceu O Livro dos Espíritos?

AK – Da comparação e da fusão de todas as respostas, coordenadas, classificadas e muitas vezes retocadas no silêncio da meditação, foi que elaborei a primeira edição de O Livro dos Espíritos, entregue à publicidade em 18 de abril de 1857.

Obs.: Os textos aqui apresentados como respostas de Allan Kardec, foram extraídos dos livros:

1. KARDEC, Allan. A minha primeira iniciação no
espiritismo. In:___. Obras póstumas. 29. ed. Rio [de Janeiro]: FEB, [199-]. pt. 2.
2. REVISTA ESPÍRITA. São Paulo: LAKE, 1858. p. 34.
3. REVISTA ESPÍRITA. São Paulo: LAKE, 1858. p. 68.

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