O rebaixamento do Limbo e o destino das crianças após a morte

Marcelo Henrique Pereira, Mestre em Ciência Jurídica

Depende em que você acredita. Há os que pregam que uma criança que morre em tenra idade torna-se anjo, tal qual ilustram as telas renascentistas, e, até mesmo, as figuras do Barroco. A Igreja Católica, por sua vez, sempre advogou a idéia de que um infante que morre teria como destino um lugar chamado Limbo.

Isto, agora, deve mudar “por Decreto”, pois o Cardeal Ratzinger (Papa Bento XVI) e seu ilustre colegiado eclesiástico divulgaram a mudança na “sistemática de administração da Justiça Divina”. Agora, as crianças, por eqüidade (?), passam a ter o “direito” de ocupar os mesmos lugares dos demais seres que desencarnam: Céu, Inferno ou Purgatório, conforme o caso.

O aparente “rebaixamento” do Limbo tem, assim, a seguinte justificação: “[...] o conceito sempre foi problemático. Afinal, implica que algumas almas, independentemente de cometer qualquer pecado, não terão nenhuma chance de chegar ao paraíso. Um menino índio que nasce e morre na selva, sem jamais ouvir falar de Jesus, é um cidadão de segunda classe mesmo no além, porque na melhor das hipóteses chegará ao limbo”.

A Teoria do Limbo (em sua dupla acepção, Limbus infantium e Limbus patrum, isto é, a destinação futura das almas das crianças não-batizadas, no primeiro plano e dos patronos, isto é, os homens de bem da Antigüidade, que viveram antes de Jesus) foi sugerida por São Gregório, o Teólogo, no século IV de nossa era, em contraponto à idéia agostiniana de que “todas as almas não batizadas iam para o inferno, menos as crianças que tinham como destino um círculo infernal de menos sofrimentos”, para, afinal, ser adotada como crença religiosa a partir do século XIII, com Tomás de Aquino. Embora a idéia nunca tivesse sido oficializada por um concílio, embora pregada e repetida pelos clérigos, mesmo modernamente, sendo que, em 1905 o papa Pio X afirmou textualmente que o limbo existia e as almas das crianças não-batizadas estavam lá. Em paralelo, a literatura universal – com forte influência da dogmática católica – também registra sua existência, como por exemplo, Dante Alighieri, em “A Divina Comédia”, já havia sugerido que o lugar alojaria Sócrates, Platão e até muçulmanos como o filósofo Averróes e o sultão Saladino.

O Limbo, assim, seria, em regra, aquele lugar para onde vão as almas que, sem ter cometido pecados mortais, estão para sempre privadas da presença de Deus, pois seu pecado original não foi submetido à remissão através do batismo. Na moral judaico-cristã tradicional se encontra situado algures entre a terra, o paraíso e o inferno. Quem nele fica preso é simultaneamente mortal e imortal, santo e pecador, homem e espírito.

Independentemente de sua origem ou configuração teórico-histórica a proposta sempre foi polêmica – até mesmo para os católicos – porque importava a pré-condenação (eterna) de seres que não tivessem tido a oportunidade de submeter-se aos caprichos e vontades dos ritos religiosos dominantes (e seus sacramentos impostos aos fiéis). Representaria, assim, a impossibilidade completa de redenção, com a impossibilidade fática de alguém que não tivesse cometido “qualquer pecado”, chegar ao “prêmio” da destinação eterna venturosa, o Paraíso. Inclusive aqueles que, por circunstâncias de fato (origem, naturalidade, lugar de convivência, cultura, adesão ou não a determinadas crenças ou filosofias).

Tal acepção, assim, é completamente contrária à idéia de Misericórdia e Bondade Divinas, porque um Deus que pune – por punir – sem considerar, ao menos, o que se fez ou o que se deixou de fazer, não pode ser, nunca, um Deus Justo. Resta saber se, mesmo cultuando tal crença, os pais das crianças – de todos os tempos – aceitavam resignadamente a idéia de imaginar seus filhos num lugar como o Limbo, destinados por toda a Eternidade, sem a perspectiva de voltar a vê-los e de gozar de sua presença próxima. Se a morte, por si só, sempre foi (e ainda é) uma questão delicada, imagine-se a circunstância da perda de filhos muito jovens e a repercussão disso para o contexto psicológico dos pais.

Vale dizer, ainda, que os adeptos de religiões como o Protestantismo e as Igrejas Evangélicas não adotam tal conceito, sendo as crianças consideradas puras, indo para o Céu, sem escalas, em caso de morte. Aqui, uma premiação completa e, igualmente, sem julgamento do que a criança tenha ou não feito, considerando, ainda, a circunstância de que com horas, semanas, meses e, até, poucos anos de vida, não seria possível um diagnóstico da finalidade existencial e seus contornos.

Felizes são aqueles que, diversamente destas crenças, aceitam a teoria de que todos, indistintamente do tempo de vida na Terra, são aquilatados pelo “conjunto da obra”, não desprezando cada parcela da completude. Somos Espíritos imortais e, desta forma, cada existência se traduz como um conjunto de oportunidades valiosas para o ser, sem importar quantos anos ela tiver. Com a morte, portanto, não há um destino inevitável para aqueles que sejam crianças, muito porque tais noções representam meras convenções e simbolizam a submissão a verdades parciais concebidas pelas seitas ou filosofias religiosas. Em regra geral, um ser que vive poucos anos e desencarna em idade infante é conceituado pela filosofia espírita como um completista (O livro dos espíritos, item 199), considerada a situação de uma existência anterior ter sido interrompida antes do momento que havia sido, digamos, convencionado para o seu termo, na esteira da idéia do planejamento encarnatório, em circunstâncias direta ou indiretamente relacionadas à sua vontade e procedimento. O evento de sua morte, deste modo, tem um efeito direto em relação aos seus pais (e, até, extensivamente, a outras pessoas, geralmente parentes próximos, como irmãos ou avós), em termos de provação ou expiação, sendo válidos para o aprendizado espiritual destes últimos.

Por fim, relembrando a judiciosa ponderação de Allan Kardec em comentário ao tema proposto por ele aos Espíritos Superiores (sorte das crianças após a morte), a Lei Universal é a mesma para todos, pois todos se acham sujeitos à aplicação da Justiça Divina. Merecimento e responsabilidade são, assim, os contornos de todos os atos espirituais, neste e em outros Planos existenciais

Comentários